Resolvi escrever naquela época porque havia, como há ainda hoje, os procedimentos padrões das casas espíritas na leitura do Evangelho Segundo o Espiritismo como a "bíblia oficial" de cabeceira, fonte única de contato com o Espiritismo.
Escrevi talvez como uma forma de desabafo, mas guardei o conteúdo no intuito quem sabe de um dia divulgá-lo.
Em 2009, como participo de um grupo de Estudo que se reúne ha 15 anos para estudar minuciosamente o que tem para oferecer o Espiritismo para uma vida digna - mais a frente escrevo sobre esse grupo, resolvi colocar meus amigos a par do texto do meu contato com a Doutrina Espírita (DE).
Assim, como alguns dos amigos fizeram suas observações críticas a respeito, hoje deixo a todos o mesmo posicionamento com espírito aberto às observações e críticas.
Com a DE aprendi a diversidade que somos
"Na intimidade com a Doutrina Espírita
Quando fui apresentado a Doutrina Espírita (DE) sua fisionomia era um tanto estranha e complexa, diria mesmo horrorosa. Seu aperto de mão foi o “Memórias de um suicida” de Yvone Pereira. Aquele calhamaço impressionou em dois meses de leitura. As conseqüências das atitudes niilistas do ser humano diante da inexistência de perspectivas depois da morte, agora com a DE, passaram ser assustadoras.
Nesse primeiro contato a impressão foi de grande apreensão. A imaginação me permitiu visualizar os que saíam de cena, por essas atitudes, o pós-morte, de forma fantasiosa. Mas, a imunização dos “infernos e purgatórios” religiosos que continuamente abominava me permitiu superar o sentimento de temor. O raciocínio era simples, entre essa atitude tão dramática - o suicídio e outras milhares formas de morte, o ser humano também teria destinos variados e em consonâncias com as existências da suas vidas encarnados, sem penalizações radicais.
A dedução me estimulava nesse emaranhado de máximas e sentimentos alguma linha lógica da existência, do viver e do por quê. A busca me permitiu ser apresentado a outros livros que se figuravam como Doutrina Espírita.
Uma segunda apresentação produziu uma impressão mais branda e estimuladora, mas ainda incompleta, do que seria a Doutrina Espírita. Muito prazer, sou as obras de André Luiz. A pompa se valia da vida e do aprendizado que o autor passou num mundo desconhecido. Ele “lá” e eu de cá, comecei entender um pouco do mundo dos mortos. Destrinçar os 13 livros exigiu observar a morte em todas as particularidades. Mesmo sem prova da continuidade da existência, o encadeamento lógico se firmava começando demolir o muro do conceito de vida e de morte. O tempo foi a ferramenta que permitiu assimilar o novo paradigma.
As circunstâncias proporcionavam curiosidades, mas ainda se valia de exemplos particulares, com fundo de regras morais, que tendiam a generalização. Um perigo para a tendencialidade e um risco para a volta da crença e da fé como únicos e verdadeiros instrumentos de compreensão.
As múltiplas faces que apresentavam a Doutrina Espírita não conduziam à coerência das idéias e sentimentos que dela falavam. Obras sagradas, como o do autor espiritual Emmanuel, proliferado nas prateleiras das livrarias e nas mãos dos adeptos inspiravam pensamentos e conduziam comportamentos. Os assuntos bíblicos tornaram-se mais importantes que as obras básicas da DE. Dela extraiam o entendimento filosófico e ético do espiritismo. Eram (e são) idolatradas, lidas num ritual, decoradas e repetidas em sermões, cuja máscara incutia o sentimento daquilo que sempre evitava – o igrejismo.
Finalmente nos encontramos, EU e a DE. Não por acaso, mas com certa dose de insistência mesmo porque não havia setas indicativas para ela. No centro espírita que me recebeu e me outorgou o direito de repensar não proporcionava, por uma pedagogia espírita, ir ao encontro da sua filosofia. Esbarrávamos no único livro das obras kardequianas - o Evangelho segundo o Espiritismo, lia-se pequenos trechos em reuniões e comentava-se depois . Apenas isso.
Quando ela (a DE) apareceu não se apresentou de todo, foi uma aproximação lenta e fascinante que proporcionava uma admiração. De forma singela, despretensiosa, sem proselitismo, não se importou com a minha ansiedade em conhecê-la e nem a avidez de tê-la. Apenas disse de forma curta e objetiva, “satisfação, sou ‘O Livro dos Espíritos’, acompanhe-me.”
Reconheço que foi muito difícil o início. Ela se dirigia a todos os lugares e a nenhum ao mesmo tempo. Em cada leitura me cobrava uma dedicação exclusiva para entender cada tema. Na investigação literária, obras clássicas de autores que tentaram desvendar o mundo estranho dos espíritos, como também a história de Allan Kardec no desenvolvimento da doutrina, pelas Revistas Espíritas, foram associadas ao meu estudo. As nuances doutrinárias produziram uma impressão salutar ao conjunto das minhas idéias.
Mas, apareceu um grupo, que denominamos de GELD que insistia no mesmo propósito que o meu. Estudar essa senhora centenária – A Doutrina Espírita, através de seu principal livro, “O Livro dos Espíritos” isso foi o nosso vínculo.
Reconheço que nos mobilizamos lentamente, mas nessa particularidade estava o segredo em julgá-la melhor. O propósito não estava em cumprir de forma sistematizada, simplesmente em lê-la , mas entendê-la. As nossas dúvidas eram e são ilimitadas, não havia como não nos debruçarmos minuciosamente sobre a sua filosofia e ter noção do seu perfil e dos seus princípios.
Foram 15 anos de encontros semanais, entre purgações de nossos fantasmas às discussões das vírgulas juntamente com os despojos das verdades particulares. Ficou como resultado o sentimento de conforto por saber que não sabemos. A convicção da busca foi a nossa melhor conquista.
Hoje posso garantir, sem ser pretensioso, que compreendo a Doutrina Espírita, porque me pôs em pé e a pé. Estendeu o horizonte e me deixou livre para seguir os caminhos. Incitou o livre pensar e questionar sem temor. Tornou a responsabilidade o compromisso comigo mesmo, sem pieguismo, cuja receita de comportamento diz respeito apenas a mim. Algumas vezes os exemplos são medidas que imprimem os pesos, mas as formas são particulares e os resultados pessoais.
Descobri que o evoluir é solitário.
Muito devo ao Grupo Espírita Léon Denis, conhecido como GELD.
As diversidades de idéias permitiram os debates, ampliaram as concepções filosóficas e tornaram indefinidas as definições. Contemplar cada membro do Grupo era e é, perceber a caminhada solitária de cada um à linha do horizonte, como eu."
Assim, inicio este blog para discutir abertamente sem termor às críticas e sem presunção de dono da verdade, mas apenas como um observador que tem o questionamento a forma de pensar.