Dois assuntos recentes que li me fizeram relembrar alguns momentos que passei quando engajado no movimento espírita, a importância dos livros espíritas.
A farta, mas não tanto quanto agora, literatura espírita e espiritualista na época se misturavam nas prateleiras.
Tudo era novidade e interessante.
De Rochester a Ramatís, Pietro Ubaldi a Roustaing, e todos aqueles que foram psicografados pelo médium Chico Xavier, eram qualificados pelas editoras no mesmo patamar de importância. Sem falar, lógico, dos romances espíritas de Yvone Pereira, Zibia Gaspareto e outros médiuns que encantavam com os dramas e suas causas envolvendo a vida encarnada e espiritual.
Paralelamente à edição oficial, em que a FEB teve e tem grande mérito da divulgação do espiritismo pela publicação maciça de livros que avançaram além das fronteiras da língua portuguesa, as editoras, Edicel (hoje não existe mais) – lançou clássicos importantes, Instituto de Difusão Espírita (IDE) a “Revue Spirite” de Kardec, foi um sucesso, o Clarim, Sociedade Editora Espiritualista F. V. Lorenz, DICESP – Divulgação Cultural Espírita, lançaram nomes como J. Herculano Pires, Hermínio Miranda, Jorge Andréa, Deolindo Amorim e a tantos outros que me ensinaram a ver a Doutrina Espírita com lupa nos olhos e auscultar a leitura com cuidado clínico.
Evidentemente, as obras básicas de Allan Kardec, com a variação de três traduções (Salvador Gentile, J. Herculano Pires e Guillon Ribeiro), que formaram toda a estrutura da filosofia que mostra um lado nada oculto da vida, constituíram a linha do meu pensamento.
Volto então, ao assunto que me despertou as lembranças.
O primeiro foi o email do amigo médico-pediatra, que advertia para a preocupação com o livro “Voo da Esperança”, assinado por "Alberto Santos Dumont" psicografado pelo "médium" Woyne Figner Sacchetin, sobre a tragédia da TAM ocorrida em julho de 2007, em São Paulo. O mesmo livro foi motivo da coluna de um jornal do Distrito Federal, que o tratou de charlatanismo.
O segundo, a coluna de Carlos Heitor Cony, com título “O ovo e a galinha”(somente assinante do UOL), sobre o livro do aiatolá Khomeini, “A Explicação dos Problemas”. Com fina ironia que lhe é peculiar, Cony ressalta o livro como “um repositório de sabedoria e de fecundos ensinamentos para a vida moral e prática”. Destaca entre os ensinamentos: “não posso ter filhos com a irmã da minha sogra, com a tia da minha prima (que pode ser minha própria mãe)” e que “em compensação, desde que faça certas abluções e tenha os olhos e o coração voltados para Meca, posso ter relações sexuais com o pai, o filho e os primos de minha mulher”.
Os livros têm a saúde que o autor lhes dá. Quando o conteúdo tem o respeito do leitor, será admirado e naturalmente divulgado. Quando apenas desperta curiosidades, uma vez saciada passa-se para outro.
Quando ofende, tem a justiça para reparar tal erro. No caso do “Voo da Esperança” a justiça entendeu dessa forma com a sentença, proibindo a publicação de novas edições e a indenização altíssima aos parentes das vítimas.
Não me assusta e nem me preocupa as insinuações que todos os livros mediúnicos estejam vinculados à doutrina espírita. Os espíritos estão por toda parte e encontram as mãos de médiuns despreparados para divulgar, quando não o próprio animismo chega ao destempero.
Diante de tanta informação a exigência da pureza é algo utópico. As razões vão desde ao sincretismo cultural e religioso, aos interesses econômicos das editoras. As obras se sucedem. Clovis Nunes, certa vez numa palestra chegou a mensurar que a cada mês são lançados mais de trinta obras de cunho espiritualista. É impossível e desnecessário ter controle e o patrulhamento ideológico é um perigo.
Kardec afirmava “a convicção não se forma senão com o tempo por uma contínua observação feita com um cuidado particular”.
Portanto, faz parte do jogo, ou do joio.
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